Insônia: Um panorama além do "remédio para dormir"

Medicina do sono · Baseado em evidências

Um em cada três adultos convive com sintomas de insônia, e boa parte deles recebe, como resposta reflexa, um hipnótico. O problema é que a melhor evidência aponta para outro caminho: o tratamento de primeira linha da insônia crônica não é um comprimido. Uma síntese crítica para quem prescreve.

01 Panorama

Não é queixa trivial

Sintomas de insônia acometem cerca de um terço da população adulta, e o transtorno de insônia crônica, sua forma persistente, atinge aproximadamente 6% a 10% dos adultos, com predomínio em mulheres e idosos. Longe de ser uma queixa banal, a insônia é um transtorno com repercussões cardiometabólicas, cognitivas e psiquiátricas bem documentadas.

A relação com os transtornos do humor e de ansiedade é bidirecional: a insônia é fator de risco, pródromo e perpetuador desses quadros, a ponto de seu tratamento constituir estratégia de prevenção da depressão. Somam-se a associação com hipertensão, eventos cardiovasculares, disfunção metabólica e maior risco de suicídio. Ainda assim, o transtorno permanece cronicamente mal conduzido, com hipnóticos prescritos por tempo superior ao recomendado, quando a evidência aponta para outra direção. O problema central não é a falta de tratamento, e sim a escolha equivocada da primeira linha.

02 Diagnóstico

Clínico, e raramente com polissonografia

O diagnóstico é clínico. Os critérios do DSM-5-TR e da ICSD-3 exigem dificuldade de iniciar ou de manter o sono, ou despertar precoce, apesar de oportunidade e circunstâncias adequadas, acompanhada de prejuízo diurno (fadiga, alteração de humor, cognição ou desempenho). Considera-se crônica quando ocorre ao menos 3 noites por semana por 3 meses ou mais; abaixo desse limiar, fala-se em insônia de curta duração. A avaliação se apoia no diário do sono de 1 a 2 semanas, no Índice de Gravidade da Insônia e, em casos selecionados, na actigrafia.

Ponto-chave

O transtorno de insônia é diagnóstico clínico. A polissonografia não é indicada de rotina e deve ser reservada à suspeita de outro transtorno do sono, como apneia obstrutiva, síndrome das pernas inquietas ou movimentos periódicos dos membros e narcolepsia.

O modelo dos 3P (Spielman) organiza a compreensão do quadro: fatores predisponentes (traços, genética), precipitantes (estresse, doença) e perpetuadores. São os perpetuadores, o despertar condicionado e comportamentos mal-adaptativos como estender o tempo na cama, que cronificam a insônia, e é sobre eles que a terapia comportamental atua.

03 Primeira linha

O tratamento que não é um remédio

Aqui está a mensagem que mais desafia a prática cotidiana: o tratamento de primeira linha da insônia crônica não é um comprimido, e sim a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I). As principais diretrizes internacionais, do American College of Physicians (2016), da American Academy of Sleep Medicine (2021) e da European Sleep Research Society (2023), recomendam de forma inequívoca a TCC-I antes da farmacoterapia. Sua eficácia é comparável à dos hipnóticos no curto prazo, mas com uma vantagem decisiva: o efeito é duradouro e persiste após o encerramento do tratamento, ao contrário do benefício farmacológico, que se esvai com a suspensão do fármaco. A versão digital (TCC-I digital) amplia o acesso.

A primeira linha da insônia crônica é comportamental, não farmacológica. E, ao contrário do hipnótico, seu efeito perdura depois de encerrado o tratamento.

A minha posição é direta: o reflexo de prescrever um hipnótico saltando a TCC-I é um dos erros mais enraizados da prática ambulatorial. A barreira não é a evidência, e sim o acesso a profissionais treinados e o tempo de consulta, um obstáculo que a TCC-I digital vem, progressivamente, dissolvendo.

04 Componentes

TCC-I não é sinônimo de higiene do sono

Um equívoco frequente iguala a TCC-I à higiene do sono, e a confusão tem consequências. Os ingredientes ativos da terapia são o controle de estímulos (reassociar a cama ao sono, sair da cama quando desperto, fixar o horário de despertar) e a restrição de sono (limitar o tempo na cama ao tempo de sono real, aumentando a pressão homeostática), somados à terapia cognitiva (endereçar crenças disfuncionais e catastrofização sobre o sono) e ao relaxamento. A higiene do sono, cafeína, luz, ambiente, é adjuvante necessário, porém insuficiente: como monoterapia, não trata a insônia crônica. Essa distinção é de alto rendimento e escapa com frequência tanto às bancas quanto à prática.

05 Farmacoterapia

O que a metanálise em rede mostrou

Quando a farmacoterapia entra em cena, como adjuvante ou quando a TCC-I não está disponível ou é insuficiente, a referência é a metanálise em rede de De Crescenzo e colaboradores no Lancet (2022). No tratamento agudo, benzodiazepínicos, doxilamina, eszopiclona, lemborexanta, zolpidem e zopiclona superaram o placebo; para o tratamento de longo prazo, eszopiclona e lemborexanta foram as que mantiveram eficácia. Muitos fármacos amplamente usados (benzodiazepínicos, daridorexanta, suvorexanta e trazodona) podem ser eficazes na fase aguda, mas esbarram em tolerabilidade ruim ou em ausência de dados de longo prazo, ao passo que melatonina e ramelteona não demonstraram benefício material relevante.

Farmacoterapia da insônia: perfil por classe
Classe / agentePerfilObservações
Antagonistas de orexina (daridorexanta, lemborexanta, suvorexanta)FavorávelMenor potencial de dependência e de prejuízo residual; daridorexanta com melhora do funcionamento diurno.
Z-fármacos (zolpidem, zopiclona, eszopiclona)CautelaEficazes no curto prazo; risco de dependência, quedas e prejuízo cognitivo. Evitar uso prolongado.
BenzodiazepínicosCautelaTolerância, dependência e quedas; não recomendados a longo prazo.
Doxepina em baixa doseOpçãoBem tolerada; útil sobretudo para despertares e manutenção do sono.
Melatonina / ramelteonaModestoBenefício limitado; ramelteona voltada à insônia de início.
TrazodonaEvidência fracaUso off-label muito difundido, com base de evidência escassa; não é primeira escolha.

06 Fronteira terapêutica

A nova geração: antagonistas de orexina

A novidade mais relevante da última década é a classe dos antagonistas duplos dos receptores de orexina (DORAs). O mecanismo é conceitualmente distinto dos hipnóticos gabaérgicos: a orexina (hipocretina) promove a vigília, e bloqueá-la reduz o impulso de estar acordado, em vez de sedar amplamente o sistema nervoso. São três os agentes disponíveis: suvorexanta, lemborexanta e daridorexanta. Esta última, nos ensaios de fase 3 de Mignot e colaboradores (Lancet Neurology, 2022), demonstrou melhora não apenas dos parâmetros de sono, mas do funcionamento diurno, um desfecho historicamente negligenciado. O perfil é favorável, com menor potencial de dependência e menos prejuízo no dia seguinte e rebote em comparação aos benzodiazepínicos.

A minha leitura é que os DORAs representam o avanço farmacológico mais significativo em insônia em uma geração, e constituem escolha racional quando a medicação se justifica, ainda que custo e acesso permaneçam limitantes.

07 O que evitar

Desprescrição como meta

Benzodiazepínicos e Z-fármacos são eficazes no curto prazo, mas o uso crônico acarreta dependência, tolerância, quedas e fraturas (sobretudo no idoso), prejuízo cognitivo e uma associação, ainda debatida, com demência; as diretrizes desaconselham o uso prolongado. A trazodona, apesar da enorme popularidade off-label, carece de evidência robusta e não é primeira escolha, e anti-histamínicos e quetiapina não são recomendados para insônia. A desprescrição de hipnóticos de uso crônico é prioridade clínica, idealmente conduzida em paralelo à TCC-I. A diretriz de tratamento combinado da AASM (2026) concluiu que a TCC-I isolada é a abordagem de primeira linha mais eficaz, com a combinação com fármaco oferecendo benefício apenas modesto em desfechos selecionados, como o tempo total de sono.

Conduta

Quando a medicação for necessária, prefira agentes de perfil favorável (antagonistas de orexina, doxepina em baixa dose), na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível, e planeje a desprescrição de benzodiazepínicos e Z-fármacos de uso crônico, sempre que possível ancorada na TCC-I.

08 Síntese

Mensagens para a prática

O manejo da insônia se organiza em cinco eixos. Reconhecer a insônia como transtorno de peso cardiometabólico e psiquiátrico real, e não como queixa trivial. Diagnosticar clinicamente, reservando a polissonografia à suspeita de outro transtorno do sono. Oferecer a TCC-I como primeira linha, valorizando sua durabilidade, e lembrar que higiene do sono isolada não é tratamento. Quando o fármaco for necessário, preferir agentes de perfil favorável, na menor dose e pelo menor tempo. E desprescrever benzodiazepínicos e Z-fármacos de uso crônico, de preferência apoiado na TCC-I.

O princípio que governa tudo é o seguinte: a insônia crônica se trata reeducando o sono, e não sedando o paciente indefinidamente. A pergunta clínica relevante deixou de ser "qual hipnótico prescrever?" e passou a ser "como devolver a este paciente um sono que se sustente sem depender de comprimidos?".

Referências

  1. De Crescenzo F, D'Alò GL, Ostinelli EG, et al. Comparative effects of pharmacological interventions for the acute and long-term management of insomnia disorder in adults: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2022;400(10347):170-184. doi.org/10.1016/S0140-6736(22)00878-9
  2. Riemann D, Espie CA, Altena E, et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. J Sleep Res. 2023;32(6):e14035. doi.org/10.1111/jsr.14035
  3. Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255-262. doi.org/10.5664/jcsm.8986
  4. Sateia MJ, Buysse DJ, Krystal AD, Neubauer DN, Heald JL. Clinical practice guideline for the pharmacologic treatment of chronic insomnia in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2017;13(2):307-349. doi.org/10.5664/jcsm.6470
  5. Qaseem A, Kansagara D, Forciea MA, et al. Management of chronic insomnia disorder in adults: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2016;165(2):125-133. doi.org/10.7326/M15-2175
  6. Mignot E, Mayleben D, Fietze I, et al. Safety and efficacy of daridorexant in patients with insomnia disorder: results from two multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trials. Lancet Neurol. 2022;21(2):125-139. doi.org/10.1016/S1474-4422(21)00436-1
  7. Morin CM, Drake CL, Harvey AG, et al. Insomnia disorder. Nat Rev Dis Primers. 2015;1:15026. doi.org/10.1038/nrdp.2015.26
  8. American Academy of Sleep Medicine. Clinical practice guideline on the combination of behavioral and pharmacological treatment for chronic insomnia disorder. 2026. aasm.org/combination-treatment-chronic-insomnia-guideline
  9. UpToDate. Chronic insomnia disorder in adults: Assessment and diagnosis; Overview of treatment; Pharmacotherapy. Wolters Kluwer; atualizado em 2025. uptodate.com

MedRam · Memória clínica. Conteúdo de natureza educacional, destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico individualizado, as diretrizes locais vigentes nem a avaliação direta do paciente.

Comentários

Postar um comentário